A enfermagem brasileira, historicamente marcada por jornadas exaustivas e condições de trabalho desafiadoras, vive um momento decisivo de debate e mobilização: o questionamento do modelo de carga horária de 44 horas semanais, frequentemente associado à escala 6x1. Trata-se de um regime que, embora legalmente permitido, já não dialoga com as necessidades atuais dos profissionais nem com a complexidade do cuidado em saúde.
A rotina da enfermagem vai muito além do cumprimento de horas. Ela exige atenção contínua, tomada de decisões rápidas, responsabilidade técnica e, sobretudo, equilíbrio emocional. Manter profissionais submetidos a longas jornadas, com apenas um dia de descanso semanal, impacta diretamente não apenas a saúde física e mental desses trabalhadores, mas também a qualidade da assistência prestada à população.
Estudos nacionais e internacionais apontam que jornadas extensas aumentam significativamente o risco de erros assistenciais, fadiga crônica, adoecimento psíquico e afastamentos do trabalho. Nesse cenário, a revisão da carga horária deixa de ser apenas uma pauta trabalhista e passa a ser uma questão de segurança do paciente.
A proposta de superação do modelo 6x1 traz consigo uma série de benefícios concretos. A redução da jornada semanal permite maior tempo de descanso, melhora a qualidade de vida e contribui para a valorização profissional. Além disso, favorece um ambiente de trabalho mais seguro, com profissionais mais atentos, menos sobrecarregados e mais satisfeitos com suas condições laborais.
Outro ponto relevante é o impacto positivo na retenção de profissionais. Em um país onde a enfermagem frequentemente enfrenta múltiplos vínculos empregatícios para complementar renda, a melhoria das condições de trabalho pode reduzir a rotatividade, fortalecer vínculos institucionais e garantir maior continuidade no cuidado.
É importante destacar que essa mudança não deve ser vista como um custo, mas como um investimento. Investir em melhores jornadas é investir em saúde pública, em eficiência do sistema e, principalmente, em vidas. Países que avançaram na redução da carga horária em áreas críticas como a saúde observaram ganhos significativos em produtividade e qualidade assistencial.
O debate sobre o fim da jornada 6x1 na enfermagem precisa avançar com responsabilidade, diálogo e compromisso com a realidade brasileira. Não se trata apenas de reduzir horas, mas de construir um modelo sustentável, que respeite os profissionais e atenda às demandas da população.
Cuidar de quem cuida é um princípio básico de qualquer sistema de saúde que se pretenda eficiente e humano. A enfermagem brasileira merece esse avanço e a sociedade também.
Davi Apóstolo
Enfermeiro e articulador da valorização da enfermagem brasileira
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