O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” mudou a rotina de milhões de pessoas que buscam tratamento para diabetes tipo 2 ou controle do peso. Mas, junto com a popularização desses medicamentos, também aumentaram as dúvidas, os relatos de efeitos adversos e a preocupação das autoridades sanitárias com o uso inadequado e a comercialização de produtos irregulares.
Agora, um novo alerta colocou a comunidade médica e os pacientes em atenção.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está investigando 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA) em pessoas que utilizavam medicamentos da classe das chamadas canetas emagrecedoras.
O assunto foi divulgado pelo G1 em reportagem publicada em 28 de setembro de 2026.
Entre os medicamentos mencionados nos registros estão Ozempic, Wegovy, Wegovy FlexTouch, Rybelsus e Mounjaro.
Mas existe uma informação fundamental que precisa ser destacada: os casos estão sendo investigados e, até o momento, a existência das notificações não significa que os medicamentos tenham sido comprovadamente responsáveis pela perda de visão.
O que chamou a atenção das autoridades?
A NOIA é uma doença que pode afetar o nervo óptico e provocar perda súbita da visão, geralmente em um dos olhos.
Por se tratar de uma condição que pode ter consequências importantes para a visão, qualquer suspeita envolvendo medicamentos precisa ser investigada por sistemas de farmacovigilância.
No caso divulgado recentemente, dos 13 registros analisados, apenas um envolve a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Os demais registros estão relacionados a medicamentos que utilizam a semaglutida como princípio ativo.
Essa informação é especialmente importante para evitar que uma investigação envolvendo diferentes medicamentos seja interpretada como uma confirmação de que o Mounjaro esteja causando cegueira.
Até que as investigações sejam concluídas, não é possível estabelecer essa relação de causa e efeito.
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Mounjaro: o que é o medicamento?
O Mounjaro é um medicamento à base de tirzepatida, utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e também aprovado no Brasil para o controle crônico do peso dentro de critérios específicos.
A tirzepatida atua sobre mecanismos hormonais relacionados à regulação da glicose, do apetite e da ingestão alimentar.
A expansão de seu uso fez com que o medicamento se tornasse conhecido também fora do ambiente médico, especialmente nas redes sociais.
É justamente nesse ponto que especialistas e autoridades sanitárias reforçam uma preocupação: um medicamento aprovado e utilizado corretamente não deve ser confundido com produtos de origem desconhecida, fórmulas clandestinas ou substâncias adquiridas pela internet.
O problema não está apenas no medicamento
A popularização das canetas também criou um mercado paralelo.
Em 2026, a Anvisa adotou diversas medidas contra produtos contendo tirzepatida ou outras substâncias semelhantes que não possuem registro sanitário no Brasil ou são fabricados por empresas de origem desconhecida.
Em setembro, a Agência proibiu, inclusive, a comercialização de uma chamada caneta de GLP-1 denominada T36, que não possui registro sanitário no país. A Anvisa também proibiu a comercialização de produtos anunciados na internet contendo tirzepatida ou alegando conter retatrutida.
Para o consumidor, a diferença é fundamental.
Um medicamento regularizado passa por exigências relacionadas à qualidade, segurança, fabricação, armazenamento e controle sanitário.
Já um produto de origem desconhecida pode não oferecer qualquer garantia sobre composição, concentração, esterilidade ou conservação.
Tirzepatida em pó: um novo alerta
Outro fenômeno que chamou a atenção da Anvisa nos últimos dias foi a venda de tirzepatida em pó pela internet, acompanhada de vídeos ensinando o próprio usuário a diluir e aplicar o produto em casa.
A Agência publicou um alerta específico em 23 de setembro de 2026 e classificou essa prática como insegura.
Segundo a Anvisa, medicamentos injetáveis precisam ser produzidos em condições adequadas de esterilidade. A manipulação inadequada pode expor o paciente a contaminações e infecções.
Ou seja: não se trata simplesmente de “misturar um pó e aplicar uma injeção”.
Existe uma cadeia de controle de qualidade necessária para garantir que um medicamento injetável seja seguro.
Pancreatite também está entre os riscos monitorados
A preocupação das autoridades não começou com os casos de alteração visual.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou um alerta sobre o risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, classe que inclui a tirzepatida e a semaglutida.
A pancreatite já é uma reação adversa prevista nas informações dos medicamentos. O alerta reforçou, porém, que o uso fora das indicações aprovadas pode aumentar os riscos.
A Anvisa orienta que pessoas que utilizam esses medicamentos procurem atendimento médico diante de dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando acompanhada de náuseas ou vômitos.
Quando procurar atendimento?
Alguns sintomas não devem ser ignorados.
Uma pessoa que utiliza medicamento para diabetes ou controle do peso deve procurar atendimento médico diante de sintomas importantes ou inesperados.
No caso de alteração súbita da visão, a recomendação é procurar atendimento imediatamente.
Da mesma forma, uma dor abdominal intensa e persistente, principalmente quando acompanhada de náuseas ou vômitos, merece avaliação médica rápida devido à possibilidade de pancreatite.
O paciente não deve esperar os sintomas desaparecerem por conta própria.
Não interrompa o tratamento por conta própria
Diante de notícias sobre possíveis efeitos adversos, é natural que pacientes fiquem preocupados.
Entretanto, a orientação não é abandonar o tratamento sem conversar com o profissional responsável.
A decisão de iniciar, modificar ou interromper um medicamento deve ser individualizada e feita com acompanhamento profissional.
O objetivo da farmacovigilância é justamente identificar possíveis riscos, investigar os casos e aperfeiçoar continuamente as informações de segurança.
Um alerta também para quem compra pela internet
Outro ponto merece atenção.
A Anvisa vem intensificando a fiscalização sobre produtos irregulares relacionados às canetas emagrecedoras. Em abril de 2026, a Agência informou que havia realizado inspeções em farmácias de manipulação e empresas importadoras, com interdições decorrentes de problemas técnicos e ausência de controle de qualidade.
Em janeiro, a Agência também proibiu produtos de tirzepatida de determinadas marcas e retatrutida comercializados por empresas desconhecidas e anunciados em redes sociais.
A recomendação é simples:
Desconfie de produtos vendidos fora dos canais autorizados, especialmente quando prometem resultados rápidos, preços muito abaixo do mercado ou não apresentam procedência claramente verificável.
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Informação pode evitar riscos
O crescimento das terapias para obesidade e diabetes representa uma mudança importante na medicina. Ao mesmo tempo, a popularização desses medicamentos exige responsabilidade.
O Mounjaro e outros medicamentos da mesma classe não devem ser tratados como produtos comuns para emagrecimento.
São medicamentos que possuem indicações, contraindicações, efeitos adversos, formas corretas de utilização e necessidade de acompanhamento.
No caso dos 13 registros de NOIA investigados no Brasil, o mais importante neste momento é preservar a precisão da informação: há notificações sob investigação, mas isso não significa que os medicamentos tenham sido comprovadamente responsáveis pelos casos.
A ciência precisa de investigação, análise dos prontuários, avaliação clínica e acompanhamento dos casos antes de estabelecer uma relação causal.
Enquanto isso, uma recomendação permanece válida:
Medicamento não é atalho. Segurança vem antes da pressa para emagrecer.
O acompanhamento profissional, a aquisição de medicamentos por canais regularizados e a atenção aos sinais de alerta continuam sendo ferramentas fundamentais para reduzir riscos e proteger a saúde.
🔎 ATENÇÃO
Esta matéria possui caráter jornalístico e informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou orientação de profissionais de saúde.
Em caso de sintomas importantes, procure atendimento médico.
Fontes: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); G1 Saúde; informações oficiais de farmacovigilância e fiscalização sanitária.
Portal Caires — Informação, Saúde e Educação.
✍️ Sobre o Autor
Claudio Caires, é acadêmico de Comunicação Social e Institucional, SEO da Caires Emergência & Treinamentos, Socorrista, Resgatista, Instrutor de Socorros e Resgates, Técnico em Enfermagem e Técnico em Segurança do Trabalho.
Com mais de 30 anos de experiência em resgates, primeiros socorros, educação em saúde e capacitação profissional, dedica-se à produção de conteúdos baseados em evidências científicas e na experiência prática, contribuindo para a formação de estudantes, profissionais da saúde e da comunidade.







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